sábado, 30 novembro 2013 00:00

Estudante Canadense ensina inglês para moradores de rua

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Enquanto brasileiros manifestam, compartilham mensagens carregadas de hipocrisia, políticos se atacam e fazem promessas, uma estudante Canadense com poucas palavras, e muita atitude mostra como fazer a diferença.

Fonte: O Globo, por  29/11/13  - Notícia que Astraliza!

RIO — A cena atrai os olhares de quem passa pela Rua Gomes Freire, na Lapa. Sentada no chão, e com um quadro branco e uma caneta azul nas mãos, a canadense Melina Cardinal, de 19 anos, pede a um grupo de moradores de rua que repita em inglês palavras como brother(irmão),mother (mãe) e sister (irmã). O gesto faz parte das aulas de inglês que há mais de um mês acontecem na calçada da rua, em frente ao Banco Santander. Durante uma hora, Melina propõe jogos, oferece brindes, intervém nas eventuais brigas e oferece um lanche, que é devorado em minutos pelos alunos.

A turma nem sempre é a mesma, mas os encontros acontecem três vezes por semana, sempre às 13h. Vestindo uma saia longa estampada, camiseta branca, chinelos e óculos escuros, Melina chega ao local carregando uma sacola cheia. Oferece iogurte, pão de forma, manteiga, mortadela e suco.

— É para eles ficarem mais concentrados na aula — diz ela.

Sem pratos ou talheres, eles comem o iogurte com os dedos e apoiam o pão na tampa da margarina, no chão. Pouco depois começa uma discussão, sem motivo aparente, e Adrian, de 29 anos, joga todo o suco de laranja da garrafa fora e sai correndo. Melina vai atrás dele e o convence a voltar.

Querida por todos, ela chama cada um deles pelo nome. Distribui cadernos e canetas e começa a aula.

— Hoje vamos falar de família. Cada um escreve a palavra do lado do nome — diz ela, enquanto distribui folhas aos alunos.

Jeferson, de 19 anos, mostra orgulhoso palavras escritas por ele em inglês como green (verde), blue (azul), red (vermeho). O jovem, que diz ser de Belford Roxo e ter cursado até o sexto ano, é um dos mais dedicados da turma. Presta atenção em tudo e se sai relativamente bem nos exercícios.

Menos de dez minutos depois do início da aula, entretanto, um dos rapazes, completamente sonolento e alheio a tudo, pega um cobertor e dorme. A única mulher do grupo, que se recusa a dar o nome ou a se deixar fotografar, vai embora. Restam quatro.

Um adolescente de 16 anos, que preferiu assistir à aula de longe porque também não queria ser fotografado, conta que não usa drogas há mais de um mês. Pede para as pessoas não darem dinheiro aos integrantes do grupo, “só comida”. Ex-morador de Jacarepaguá, ele conta que saiu de casa quando sua mãe morreu ao bater “com a cabeça no paralelepípedo” há dois anos. O pai morreu bem antes, quando tinha oito anos, esfaqueado:

— “Tô” acostumado a viver na rua.

Bombons para os vencedores

Para atrair a atenção dos alunos, Melina se desdobra. Divide a turma em equipes, chamadas por ela de “Itália” e “Espanha”, e vai somando pontos no quadro. Na primeira rodada, o time vencedor escolheu bombons numa caixa levada por ela.

— Hoje vocês estão muito desatentos — reclamava ela, que também incentivava os que acertavam.

Melina fala bem português. Moradora de Quebec, no Canadá, ela veio para o Brasil fazer trabalho voluntário, prática comum entre jovens de seu país, assim que terminam o ensino médio. Seu sonho é estudar Direito.

— Eu queria muito vir para a América do Sul. Comecei a pesquisar na internet até assistir ao documentário “Ônibus 174” (José Padilha), que fala das crianças de rua da Candelária.

Há três meses no Rio, ela mora numa república na Lapa com outros brasileiros e faz trabalho voluntário na ONG Urerê, da socióloga Yvonne Bezerra de Mello, no Complexo da Maré, e também na favela Júlio Ottoni, em Santa Teresa, onde morou inicialmente. Em outubro, resolveu também dar aulas na Rua Gomes Freire:

— Se eu soubesse, ensinaria português. Mas acho que o inglês desperta a curiosidade nas pessoas, e é o que eu posso ensinar.

Ela conta que inicialmente não levava comida para os alunos da Gomes Freire porque não tinha como bancar o lanches diários. Foi quando teve a ideia de fazer um crowdfunding com os amigos canadenses. Após alguns dias de campanha pelas redes sociais, conseguiu arrecadar dinheiro.

— Procuro condicionar a comida às aulas, mas nem sempre é possível.

Perguntada se tem esperanças de que seus alunos aprendam realmente o idioma, ela diz que isso é o menos importante:

— Quero é reforçar a autoestima deles. Quero mostrar para eles que é possível aprender coisas novas, que eles dormem no chão, mas não são um lixo, como muitos pensam de si mesmos.

Desde que começou a dar aulas de inglês para moradores de rua, a pergunta que mais responde é se não tem medo deles, já que alguns são usuários de drogas

— Eu não tenho medo, eles me respeitam. Posso andar de madrugada na Lapa porque já conheço todo mundo. Eles até me defendem quando algum homem fala alguma coisa para mim. Também não julgo se usam drogas ou não, procuro me afastar se estiverem usando, mas quem somos nós para julgá-los? Eles são pessoas que vivem nas ruas e muitas vezes não têm o que comer. Já pensou como eles ficaram nesses dias todos de chuva?

Melina planeja ficar no Brasil por pelo menos mais três meses, quando termina seu visto de turista. Nesse período, ela garante que as aulas de inglês vão continuar.

— Sei que não posso tirá-los das ruas, mas é importante fazer as coisas andarem.

 

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